Em uma semana marcada pela polarização, vimos algo raro acontecer no Brasil: uma mobilização quase instantânea em torno de um homem que decidiu sair a pé rumo à capital da República. Um gesto simples – caminhar – foi suficiente para gerar comoção em uns e profunda indignação em outros.
Vivemos tempos em que o principal campo de batalha são as redes sociais, onde discursos, versões e narrativas se enfrentam sem que, muitas vezes, ninguém saia do lugar. Nesse cenário, uma atitude concreta, física, visível, rompe a lógica do debate apenas virtual. Quando alguém decide agir – e não apenas postar – passa a expor não só suas convicções, mas também as omissões e incoerências de todos ao redor. E isso incomoda.
Mas não há nada de realmente novo nisso. A história mostra que o ato de caminhar, quando carregado de significado político e social, sempre foi profundamente perturbador para o status quo.
A primeira grande “caminhada” moderna que ganhou projeção mundial costuma ser associada ao boicote aos ônibus de Montgomery, nos Estados Unidos, iniciado em dezembro de 1955. Diante da prisão de Rosa Parks, por se recusar a ceder seu lugar a um homem branco no ônibus, a população negra de Montgomery decidiu parar de usar o transporte público. Em vez disso, passou a ir a pé ao trabalho, à igreja, ao comércio, transformando o deslocamento cotidiano em ato político.
Naquele contexto, Martin Luther King Jr., então um jovem pastor batista em Montgomery, assumiu a liderança do movimento. O boicote durou 382 dias, mais de um ano de resistência silenciosa, mas profundamente eloquente: milhares de pessoas caminharam diariamente longas distâncias para não se submeter à humilhação institucionalizada da segregação racial. Esse movimento é reconhecido como o primeiro grande ato de desobediência civil liderado por King e marcou o início de sua projeção nacional como uma das principais vozes pelos direitos civis.
A partir daí, outras marchas entraram para a história. Em 28 de agosto de 1963, King liderou a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, ocasião em que proferiu o célebre discurso “I Have a Dream”. Em 1965, teve papel central nas marchas de Selma a Montgomery, no Alabama, em defesa do direito de voto da população negra, enfrentando violência, repressão e resistência institucional. Essas caminhadas, ao mesmo tempo simples e revolucionárias, pressionaram o Congresso, sensibilizaram a opinião pública e contribuíram diretamente para mudanças legislativas e estruturais nos Estados Unidos.
E aqui cabe a pergunta ao leitor: essas marchas lideradas por King surtiram efeito? A resposta é: sim, e de forma profunda. Elas ajudaram a derrubar leis segregacionistas, impulsionaram a aprovação de importantes marcos legais em direitos civis e consolidaram, na consciência coletiva, a ideia de que a participação ativa e pacífica pode transformar a realidade.
Diante disso, voltemos ao nosso cenário. A caminhada promovida por um deputado brasileiro até a capital federal surtirá efeito? Terá força para provocar mudanças políticas, institucionais ou simbólicas relevantes? Essa é uma resposta que só o tempo poderá dar.
O que já podemos afirmar, entretanto, é que o simples fato de alguém abandonar o conforto das telas, expor o próprio corpo ao desgaste do caminho e transformar o ato de andar em mensagem política é, por si só, um ponto de inflexão. Caminhar incomoda porque tira o debate do abstrato e o coloca no concreto. Obriga todos nós a olhar, a reagir, a tomar posição – ainda que seja apenas para criticar, apoiar ou fingir indiferença.
No fim, a história mostra que, quando alguém decide caminhar por uma causa, ninguém permanece totalmente parado. Seja na adesão, na resistência ou na tentativa de desqualificar o gesto, alguma coisa se move. E é justamente esse movimento que, muitas vezes, o poder constituído mais teme.